Publicado em 17 de junho de 2026
Usando Inteligência Artificial para escrever código, um assunto clichê?

Constantemente ouço gestores, tech leads, influenciadores ou até colegas de trabalho repetindo a mesma frase à exaustão:
"Nós não precisamos mais escrever código, a IA escreve código muito melhor do que nós."
Por alguns meses, eu realmente acreditei nessa premissa e abri a mente para fazer projetos paralelos e testar essa hipótese. Logo no começo, senti um aumento de velocidade absurdo. As tarefas eram entregues com mais rapidez, a equipe de produto ficou feliz e acreditou que mais ajustes e novas funcionalidades poderiam chegar ao time. Tive a oportunidade de criar do zero um projeto para um grande público, em que todo o time de desenvolvimento se apoiou fortemente em ferramentas como Cursor, Claude Code e Codex. Com o crescimento do projeto, alguns pontos começaram a me incomodar.
Por mais que eu tentasse fazer anotações, diagramas e entender as regras de negócio, por vezes me via perdida no código, tentando descobrir onde estava a regra que gerenciava algum cálculo ou a configuração de uma variável. Validei esse sentimento conversando com o time e notei um padrão: ninguém conhecia muito bem o código. Nas situações em que precisávamos depurar problemas em produção, estávamos totalmente dependentes da IA para entender e encontrar trechos do código. Era uma sensação de não ser mais dona do código e, consequentemente, do produto. Com o tempo, percebi que, quanto mais o projeto crescia, mais crescia a insegurança do time em relação à implementação de novas funcionalidades ou às refatorações. O time tinha medo do código, bem como de interagir com ele.
Outro fator que gerou incômodo foi que toda a produtividade que ganhamos no começo se perdeu. As tarefas, as depurações e os refinamentos passaram a demorar mais. Naturalmente, os humanos não guardam contexto como a IA e, mesmo tendo produzido o código, ela também muitas vezes se mostrava ineficiente para fornecer respostas sobre um código que ela própria escreveu. No fim, senti que, por mais que seja uma ferramenta poderosa para ajudar a escrever documentações e testes, não fui convencida a delegar todo o meu trabalho para a IA. O núcleo da aplicação, o domínio e as regras de negócio precisam de um olhar totalmente humano. Talvez eu ainda não tenha aprendido a trabalhar nessa etapa com uma IA como parceira.
Como agravante, sinto que há uma pressão no meio para que sejamos literalmente empurrados para "o novo jeito de programar". Isso me parece mais a tentativa desesperada de um mercado que não se sustenta em criar demanda por uma tecnologia que se provou eficiente, mas não para tudo o que se propõe, nem no volume e na magnitude com que se vende em diversas propagandas. Para elaborar POCs, é realmente uma ferramenta incrível. Ainda assim, acredito que delegar a criação de todo o código para a IA seja um erro a longo prazo.
Por outro lado, algumas partes que tomavam muito tempo do desenvolvedor, como pegar um projeto legado e entendê-lo, agora, com alguns prompts e uma leitura cuidadosa, permitem entender um projeto a fundo em algumas horas. Considero esse o maior ganho, principalmente para os desenvolvedores que estão começando na profissão ou que chegaram a uma nova organização.
Espero continuar estudando e evoluindo minhas habilidades em termos de desenvolvimento com a IA. Mas acho que eu, assim como alguns desenvolvedores, vivo um momento de luto, considerando que uma parte muito divertida e prazerosa da profissão está morrendo. O prazer de sentar e escrever um código que você pensou não existe mais.